29 de mar de 2015

Jovens decidem largar faculdades e profissões para serem padres

Padre explica que há um novo perfil das vocações sacerdotais. 'Eu tinha essa vontade de ser padre desde os 5, 6 anos de idade', diz jovem.

Alan (primeiro à esquerda) junto com os outros seis seminaristas do Propedêutico no Seminário Paulo VI (Foto: Rodrigo Saviani/G1)



























Aos 29 anos, o então professor de geografia Alan Carlos de Oliveira resolveu mudar completamente de vida por causa de um desejo antigo. Ao invés de formar cidadãos, ele optou pela evangelização. Entrou em um seminário para se tornar padre. "Foi a melhor decisão que tomei", afirma.

A decisão foi tomada em 2013 quando Oliveira morava na pequena cidade de Bela Vista do Paraíso, no norte do Paraná. Foi acompanhado por padres durante um ano, no período chamado de “discernimento”, e agora aos 30 anos, está no segundo ano do Propedêutico do Seminário Arquidiocesano Paulo VI em Londrina.

Alan conta que o desejo de ser padre despertou aos 11 anos, quando era coroinha. Mas, acabou deixando essa vontade de lado para se tornar professor.

“Fui aprovado em Física, fiz um ano e desisti. Depois resolvi fazer Geografia. O mais engraçado é que mesmo na faculdade o pessoal me chamava de ‘seminarista’, porque eu usava um crucifixo, camisas com frases religiosas e sempre carregava um rosário”, lembra.

Após se formar, Oliveira atuou por sete anos em colégios estaduais e particulares. Chegou até a fazer parte do Conselho Tutelar de Bela Vista do Paraíso. Contudo, quando completou 27 anos, o fim de um namoro de um ano e meio deu um novo rumo para a história de Allan. 

“Logo que terminei o namoro, a minha mãe lembrou a minha vontade de ser padre. Essa conversa despertou novamente em mim essa vocação. Aí conversei com o padre da paróquia que eu participava, fiz os encontros vocacionais e comecei o caminho de discernimento”, diz Alan.

Em 2014, veio a mudança para Londrina, primeiro para o Seminário Menor, e em 2015 foi ao Seminário Paulo VI. “A vocação sacerdotal te leva a abrir mão de muita coisa por um bem maior. E eu posso dizer que me sinto completo aqui, vivendo minha vocação”, argumenta.

Seminaristas adultos

Alan é o mais velho dos sete seminaristas do Propedêutico do Seminário Paulo VI em Londrina, que atende jovens entre 17 e 24 anos. Para o reitor do Propedêutico, padre Edivan Pedro dos Santos, ele representa um novo perfil das vocações sacerdotais.

“Quem entra no seminário na fase adulta da vida já sabe o que quer, com maior convicção da vocação. Geralmente esses jovens entram depois um esvaziamento, seja humano, afetivo ou espiritual, e também após vivenciar uma realidade profissional e ter uma graduação. É nesse momento que esses rapazes têm uma grande experiência com Deus. Muitas vezes essa vocação nasceu na adolescência, na juventude, porém foi abafada por outros desejos. Por tudo isso, a escolha dele se torna mais firme, com raízes mais profundas”, analisa o padre.

O próprio padre lembra que decidiu entrar no seminário já aos 24 anos. "Isso mostra que não há tempo certo. A vocação, quando despertada, permanecerá ali, inquietando, até que essa resposta seja dada", afirma.

Vocação

Em cada história ouvida dos seminaristas, a demonstração do amor pela Igreja e por Jesus Cristo é evidente. Amor este que é determinante para eles escolherem a vocação sacerdotal.

Boa parte dos que estão no Propedêutico contam que a vocação foi descoberta muito cedo, entre a infância e a adolescência. Todos ali entraram no seminário entre 2014 e 2015. Alguns não chegaram nem a pensar em fazer outra coisa a não ser se tornar padre.

“Eu lembro que tinha essa vontade de ser padre desde os cinco, seis anos de idade, quando via o padre no altar. Quando era pequeno, queria mesmo era ser Papa. Hoje, quero ser padre mesmo”, se diverte ao lembrar Wesley Ignacio, de 17 anos.

Já para outros, a vocação surgiu na vivência dentro da Igreja. Apesar de trabalhar em outras áreas ou até buscar uma profissão, decidiram largar tudo por um ideal maior. “Eu já atuei como técnico em radiologia, cheguei a iniciar o curso de Fisioterapia, mas deixei tudo isso pela vocação”, diz Luiz Locatelli Flório Neto, de 19 anos.

Alguns deles querem associar a vocação sacerdotal com a profissão desejada. O próprio Wesley Ignacio demonstra o interesse em trabalhar na área de comunicação dentro da igreja. "Pode ser na edição de programas, apresentação, trabalhar com rádio, TV. Quero trabalhar com isso, mas o sacerdócio vem em primeiro lugar. Se eu conseguir somar ambos, melhor ainda", comenta.

Celibato

Os seminaristas contam também que passaram pela experiência do namoro antes de decidir pela vocação sacerdotal. Em um dos casos, o fim do relacionamento foi causado justamente por essa decisão.

“Eu namorava fazia quatro meses com uma garota que conheci em um encontro na Canção Nova [comunidade católica localizada no interior de São Paulo]. Porém, a vocação me inquietava. Um dia decidi e contei para ela minha decisão”, conta Diego Jorge Santos, de 24 anos.

Quando questionados sobre o celibato, eles destacam que essa não é a única e nem a maior das dificuldades vivenciadas. “Há muitas outras renúncias que são mais difíceis de viver. Aqui aprendemos a viver a imagem do Jesus humano. E isso nos faz viver nossa humanidade por completo, tendo equilíbrio em cada uma das áreas, seja afetiva, social, intelectual. E Deus nos capacita para isso”, destaca Diego Santos. 

Apesar de sentirem falta da família e de amigos, nenhum deles mostra dúvida ou arrependimento pela escolha. Ao contrário, falam com firmeza e alegria sobre a vocação. “Nós sabemos que a messe é grande, mas poucos são os operários. Nós fomos escolhidos, e temos certeza que é Deus quem nos capacita para isso”, diz Emanuel Pereira Rosa, de 17 anos.

Seminário Paulo VI, em Londrina, tem atualmente 16 seminaristas (Foto: Rodrigo Saviani/G1)
Rotina

Os seminaristas têm uma agenda cheia durante a semana. No caso dos que estão no Propedêutico, o dia começa às 6h30, com a primeira oração do dia. Depois do café da manhã, têm aulas praticamente todos os dias sobre vários temas, como formação humana, temas de espiritualidade e da igreja, música, comunicação e filosofia.

Após o almoço, as atividades são variadas, entre aulas, limpeza da casa, além da prática de esportes. Uma vez por semana os seminaristas vão até a Casa de Custódia de Londrina, onde auxiliam a Pastoral Carcerária no trabalho de evangelização.

Os seminaristas também têm um dia de folga durante a semana. “Podemos sair, ir ao cinema, ao Igapó, visitar algum lugar, conhecer algo”, conta Gabriel Vital. Porém, precisam chegar até as 22h. "Quem atrasa, precisa conversar com o reitor", acrescenta.

Em alguns dias, o grupo sai junto para fazer uma atividade, geralmente acompanhada do reitor. Além disso, eles têm dois períodos de férias: um no meio do ano e outro no final do ano. Possibilidade de rever a família, os amigos, e voltar a viver no convívio de suas comunidades. Os familiares podem ser visitados também em algumas datas específicas, com na Páscoa, por exemplo.

Dimensão da vocação

Ao todo, a arquidiocese da cidade tem 27 seminaristas, divididos em quatro etapas. Destes, 16 estão no Seminário Paulo VI, sendo os sete do propedêutico e outros nove da Teologia. Além disso, são cinco seminaristas no Seminário Menor, também em Londrina, e outros seis cursando Filosofia em Maringá, também no norte do estado.

Dentro do seminário, os vocacionados passam por acompanhamento psicológico individual e em grupo, trabalho de teologia espiritual e também de orientação individual, além da observação do próprio reitor. “Cada caso é diferente. Nós temos que saber observar e orientar cada um deles”, diz o padre Edivan Santos.

Fonte: G1/Fotos: G1






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